O Processo Criativo da Pintora Manuela Frade
Título: "Onde Estão" 1993, díptico, pintura em acrílico sobre tela
com aplicação de penas e borboletas de modo a tornar a
terceira dimensão um factor vivencial do espaço perspético da obra.
Reflexões sobre o processo criativo
Reflexão I
Sempre
presa a um processo poético e lírico dentro de um mundo literário,
esboçado pelo seu desejo de vivências de mundos imaginários per-si
estruturados e, vivênciados por outros artistas, maduros e com fortes e
profundas vivências do mundo real e imaginário.
Subitamente,
o desejo explode nas suas entranhas e leva-a a manifestar-se, no mundo
das imagens, das formas, das texturas e objectos, através de reflexos
múltiplos, proporcionados por variadíssimas sugestões culturais, uma
memorizadas, outras vivênciadas, no exacto momento da criação.
Traça
essa odisseia no papel ou na tela ou ainda em objectos ou mesmo outros
suportes por ela seleccionados, criando personagens e espaços com
dinâmica poética de um momento. Opera utilizando diversos materiais,
conforme os resultados pretendidos, dimensionando, assim, as imagens
através do choque entre o infinito e o exterior que criam em si a
vontade extrema de comunicar.
No
seu percurso plástico tem ido muitas vezes buscar o seu imaginário a
obras de diferentes escritores como: Voltaire, Herman Hesse, Ernest
Hemingway, José Saramago, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Jorge
Amado, Antero de Quental, Eduardo Viveiros de Castro, Charles Lutwidge Dodgson, entre outros.
Desde
1989 que se debate com uma luta interior através dos sonhos, lendas e
mitos dos povos Índios do Brasil, país que desfrutou durante três anos e
pelo qual chegou a si mesma experimentando os jogos da vida e da morte,
a harmonia natural e o caos absoluto duma sociedade perdida no consumo,
as simbolizes adquiridas pelas experiências literárias, espectáculos,rituais e mais, muito mais, pela via sentimental e por uma
forte e impressionante experiência estética destes mundos e gentes.
De
todos os projecto que levou até agora a cabo considera o mais marcante o
das "Lendas e Mitos dos Índios do Brasil" porque o viveu e vive dentro
de si mesma e é através de si mesma que o faz chegar aos outros, as
imagens, suas, deles, dos seus sonhos e esperanças, o "grito" por todos
os Índios e todos os seres maravilhosos e que estão perdidos ou estarão
num futuro muito próximo. Por isso colocou na sua expressão plástica a
questão "onde estão?"... descobriu que esta é uma triste interrogação
sem qualquer resposta...Ela gostaria conseguir saber se a sua pintura
consegue levantar o véu do esquecimento humano sobre a importância da
vida. Poderá a sua pintura ou a sua obra plástica possibilitar uma
qualquer resposta?...
Reflexão II
Reflectindo nos mais diversos temas e aproveitando as mais diversas influências,
como também, diferentes estados de espírito. Obrigando-se a pensar, por
considerar importante, em determinadas temáticas menos habituais mas
essenciais para a conservação da nossa humanidade.
Propôs-se
a reflectir a temática "Lendas e Mitos dos Índios do Brasil" por
acreditar, tal como Rainer, Mrª. Rikle nas suas cartas a um jovem porta,
que "o tempo não é uma medida" e "ser artista não é contar" é sim
recriar realidades ou recriar-se através de realidades únicas e irrepreensíveis e irrepetíveis.
Os
Deuses do Olimpo desnudam-se e entregam-se ao banho matinal junto do
leito do rio da eternidade. As sua águas correm e dos seus seixos nasce
música repleta de misticismo e encanto.
Borboletas
voam acrobaticamente para que os seus voos deixem escritos codificados
no céu cristalino, e, para isso, pousam para saciarem a sua sede
espiritual.
Ao fazerem-no forças naturais e sobrenaturais criam
sensações fortes dentro dos seus espíritos por se saciarem no seu
delicioso leito.
Desejam os humanos, por motivo de identidade,
poder mergulhar e saciar os seus desejos e anseios, tal como, as
borboletas, no leito do rio que permanece eternamente infinito e cheio
de vida, capaz de rejuvenescer a cada segundo as suas forças criadoras,
do bem, da harmonia, do amor eterno, do éden e do enigma do paraíso.
É
na desarmonia e no desespero que o "Homem Civilizado" muitas vezes
encontra o significado desta vida terrena. Misturam suas
sensibilidades, envolvem-se numa simbiose cósmica e dessa mistura
fantástica caem abruptamente lágrimas na face de uma criança que por
momentos deixou de o ser por força da dor que se apodera de sua alma por
falta do sonho que comanda a vida.
Tudo
isto confirma mais uma vez que "o tempo não é uma medida e ser artista
não é contar"... sempre escrever criativamente ou criar pictóricamente ou
doutro modo qualquer, desde que o espírito o exija pois, a consciência
de cada um, dita o que está certo no sentido lato ou absoluto.
Afinal quem pode viver sem comunicar?
Sabemos que, até as pedras, as ínfimas moléculas e átomos, comunicam entre si!
O
"Homem", é um ser social, comunicativo deste os primórdios da
civilização...como poderá ele não fazê-lo?! Como poderá ele viver sem
pestanejar, sem sorrir, sem falar, sem suspirar, sem poder afirmar que
as flores do seu jardim são as mais belas de todas e que os Índios do
Brasil são os mais belos que alguma vez se viram!
Óbvio, será
admitir, que somos poetas da vida e que, só por acaso ou acidente, não
comunicaremos por termos abandonado o espírito, tal como, as borboletas,
se abandonam ao vento ou à mais leve brisa...
Graças ao nascer do
sol o "Homem" descobriu que haviam duas fases importantes da vida, a da
descoberta, do deslumbre e a da transformação. Esta última permite-lhe
descobrir que cresce, aprende, anda,fala, ri,chora, exprime-se e
comunica o que é essencial. Neste processo descobre também que quando
acaba a sua transformação inicia-se a sua destruição, perde a pureza,
esquece o que é ser-se virgem, começa a iludir-se, a frustra-se porque
passa a viver de ilusões perturbadoras e morre o espírito sensível e
criativo do "Homem".
Não será, portanto, permitido "escrever"
ou "criar" sem que este ato não seja de total e absoluta descoberta, o
vislumbre, de novos mundos e jardim, estrelas, borboletas, Índios e
aromas que ensinem como caminhar para a "infinita verdade", "o
absoluto", "o universal"..."o Amor".
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notas: * Rainer Rikle no lugar de criar tinha a palavra escrever.
Reflexão III
O
meu processo criativo sempre teve uma forte ligação às linguagens poética e lírica, dentro do mundo literário, esboçado
pelo desejo de recriar mundos imaginários per-si estruturados e vivenciados por
outros artistas, maduros e com fortes e profundas experiências no mundo real
enriquecedoras dos seus subjetivismos.
Subitamente,
o desejo explode dentro de mim e leva-me a manifestar no universo das imagens todos os
reflexos sugeridos sensorialmente pelas diferentes culturas; umas memorizadas ao longo dos anos, outras vividas pontualmente de modo intenso
consciente e até subconscientemente, no exacto momento da criação.
Traço
essa odisseia no papel primeiro desenhado a lápis, depois redesenhando a tinta,
alterando ou não algum pormenor porque agora já estou ciente do que registei
inicialmente.
Na
tela, mesmo quando não parto de vivências literárias seleccionadas por mim, gosto de criar
personagens e espaços com dinâmica poética e lírica, nunca deixando de incluir
um elemento essencial do meu mundo sensorial: a sensualidade! Condimento que se
tornou, por isso mesmo, obrigatório no meu discurso visual e que tanto me apraz
apresentar.
A
minha naturalidade Moçambicana fez-me, por si só, portadora das «Africanidades»
que viajaram comigo para Portugal em 1976 e de novo foram comigo para o Brasil
quando para lá viajei em 1989.
A
descoberta desse novo mundo, imbuído de «Africanidades», na história, na
música, na literatura, na pintura, na religião, na comida, no nascer e por do
sol, provocou em mim uma luta interior de identidade e, por isso mesmo,
procurei algumas respostas por
meio do estudo das diferentes religiões, dos sonhos, das lendas e mitos
dos povos Índios do Brasil.
Durante
três anos, percorri um longo caminho espiritual para chegar a mim mesma e, para
isso, precisei experimentar jogos de vida e de morte, a harmonia natural e o
caos absoluto numa sociedade perdida em exageros e consumos sem sentido, as
simbioses adquiridas pelas experiências literárias, espectáculos, rituais e
mais, muito mais, pela vida sentida intensamente no dia-a-dia e através dela a
forte e impressionante experiência estética dos mundos e gentes com quem
partilhei a minha vida.
Hoje,
as minhas «Africanidades» são como o espelho, que reflete tudo o que existe em
mim, as minhas próprias raízes. Grito e apresento na minha pintura a afirmação
do respeito imperativo pela “vida” … aquilo que eu posso traduzir por “ecologia
espiritual”, o último reduto de todas as esperanças da humanidade.